Miguel nasceu no dia 11 de dezembro de 2009, na Casa do Parto de Sapopemba, em São Paulo. Não foi nada fácil tomar essa decisão. Percorri um longo caminho para dar a ele uma história bonita desde o nascimento. E hoje estou certa de que consegui.
Sempre tive pânico de cirurgia, mas também tinha muito medo do parto normal. Quando estava grávida, cheguei a dizer para o Rodrigo, meu marido, que o parto normal era algo impossível. Como a cabeça de uma criança poderia passar por um lugar tão pequeno? E falei logo de cara: vou fazer cesárea!
Eu tinha parado de pagar meu plano de saúde fazia um mês. E fiquei muito preocupada. Ele até me falou: nós pagamos a cesárea, não tem problema. Só então fiquei tranquila. Depois disso, entrei no plano de saúde do Rodrigo e passei a me consultar com um médico indicado por um amigo nosso.
Conversei com o médico sobre o parto e ele me disse que podia sim ser cesárea. Eu fiquei feliz da vida com isso. Foi então que uma microcirurgia para tratar uma glândula inflamada na região da virilha me fez começar a mudar de ideia. Senti muita dor durante o procedimento. Então eu pensei: se é assim uma microcirurgia, imagine uma cesariana… E comecei a procurar informação.
Minha professora de yoga para gestante, que também é doula [acompanhante de parto] e conhece muito o assunto, me passou uma lista de perguntas que eu poderia fazer ao médico para entender melhor como seria o parto com ele. Na consulta seguinte, fiz as perguntas. Foi um desastre total. Ele me falou que era importante o parto normal, mas que só saberíamos na hora se eu poderia ter um. Por isso comecei a querer fugir dele, mas meu marido insistia que ele era um bom profissional.
Continuei com o médico, mas ficava com o pé atrás em toda consulta que ia. Para ele, parto normal tinha que ser sempre com corte [episiotomia], o que eu já sabia que não era verdade. Então, decidi parar de falar sobre esse assunto com ele.
Meu marido percebeu minha mudança e perguntou com que turma maluca eu estava andando. Disse que eu ia para a aula de yoga e voltava cheia de ideias diferentes…
Quando estava com 37 semanas de gestação, depois de perder uma consulta marcada com outro médico do convênio por causa de uma forte chuva que parou São Paulo, resolvi visitar a casa de parto, que naquela época era minha última opção. (Hoje penso que deveria ter sido a primeira.) Peguei o ônibus na direção errada e demorei quase duas horas e meia para chegar lá, sozinha, no horário mais quente da manhã.
A moça que me examinou, olhou os ultrassons, refez as contas e falou: você não está de 37 semanas, está de 39. Quase 39 e meia. Levei um susto. Meu médico sempre dizia que meu filho nasceria entre o Natal e o Ano Novo, entre 25 e 30 de dezembro. Mas ele estava enganado. Se eu tivesse feito a conta, teria percebido que o período que ele tinha me dado estava errado. Mas eu não tive essa prudência. Acho que confiei demais nele.
Depois de me examinar, ela colocou a mão na minha barriga e disse: olha, põe a mão! Eu coloquei. É uma contração, ela explicou. Como assim, ele vai nascer? Ela disse que tanto poderia demorar alguns dias como engrenar naquele mesmo dia. Foi só então que descobri, conversando com ela, que na casa de parto não é possível tomar anestesia. E seu eu não aguentar a dor? Ela também me perguntou pelos exames do último trimestre, mas eu não tinha feito nenhum. Nada. Saí de lá com uma lista do que precisava fazer.
À tarde fiz uma aula de yoga. À noite, consegui um horário com o médico. Meu plano era passar por uma consulta com ele para poder fazer os exames pelo convênio. Eu não estava com dor, mas via minha barriga mais dura.
Na consulta, ele quis me fazer um exame de toque. Eu questionei. Meu marido me olhou torto, com cara de quem estava pensando: lá vai ela brigar com o médico. Ele fez o toque. Eu estava com um centímetro de dilatação. Ele me passou os pedidos de exame e me mandou para casa.
Saí de lá falando que eu não ganharia neném com ele. E que também não iria para o hospital. O Rodrigo se assustou: você vai mudar de médico agora? E eu respondi: mas eu vou mudar quando, depois que o Miguel nascer? Não dá né? É agora ou nunca.
Fui para casa, marquei os exames para o dia seguinte e fiquei em jejum a partir das dez da noite. Dormi e, às duas da manhã, acordei com dor. Levantei, andei pela casa e meu marido acordou. Falei para ele que estava sentindo uma cólica embaixo da barriga. Ele começou a marcar os intervalos entre as contrações. Tomei um banho e tentei dormir. Não consegui.
Liguei para a casa de parto e descrevi o que estava sentindo. A enfermeira me disse para aguardar, que eu ainda não estava em trabalho de parto. Novamente tentei dormir e não consegui, apenas uns cochilos rápidos. Às seis da manhã, nos levantamos. Sem saber se íamos para o hospital ou a casa de parto. Foi então que ouvi a frase mais importante. Diante do impasse, o Rodrigo me disse que iria comigo para onde eu quisesse.
Isso me deixou muito calma, mas também colocou sobre mim o peso da responsabilidade. A casa de parto era um lugar que eu mal conhecia, mas eu não tinha coragem de ir para o hospital. Se fosse para a maternidade, eu achava que iriam me desmotivar e amedrontar. E eu já estava com um pouco de medo. Resolvi ir para casa de parto.
Cheguei lá às sete e meia da manhã com contrações de cinco em cinco minutos, suportáveis. Eu estava tranquila, pois acreditava que aquele era o lugar mais seguro para mim. Falei que estava em jejum desde as dez horas da noite. A enfermeira me falou para comer alguma coisa.
Eu estava com um centímetro e meio de dilatação. Ela me perguntou se eu não queria andar um pouco. Peguei meu marido e fui: demos a volta no quarteirão. Mesmo quando vinham as contrações, eu continuava caminhando. Pensava: se todo mundo fala que é bom, vamos lá…
Quando voltamos, tentei comer e botei tudo para fora. Mesmo assim eu insisti, pois sabia que iria precisar de energia. A essa altura, deitada não dava para ficar. Sentada também não. O Rodrigo saiu para comer e eu fiquei sentada na bola. Colocaram uma musiquinha bem relaxante. E a dor só aumentava.
Comecei a enjoar do meu próprio cheiro. Quis tomar um banho no chuveiro. Depois a enfermeira encheu a banheira para mim. A dor das contrações era a mesma, mas agora elas duravam mais tempo. Era uma agonia, eu queria escapar. Deitei na banheira e acho que dormi. Não sei nem como foi possível. Eu me lembro de umas três contrações dentro da banheira, mas como fiquei lá uns 40 minutos, deve ter sido muito mais do isso.
Como eu praticava yoga, apelei para todas as técnicas de relaxamento que eu tinha aprendido nas aulas. Quando não estava aguentando mais, pedi ao Rodrigo que chamasse a enfermeira. Ela veio, me examinou e disse: dilatação total! Quando ouvi isso, entrei no paraíso… Eram umas onze horas da manhã.
Ela me perguntou se eu queria ir para a cama, mas expliquei que preferia ficar ali pois a água estava me acalmando. Ela pegou então uma cadeira de plástico, eu sentei na pontinha, o Rodrigo ficou do meu lado e ela na minha frente, esperando o bebê. Eu fiquei meio desesperada e grudei nele. Como o chuveiro estava ligado, ele se molhou inteiro e teve que vestir uma roupa da casa de parto.
Pedi para ficar na posição de quatro apoios, a que mais funcionava para mim nas aulas de yoga. Debrucei na banheira e fiz muita força. O bebê ia e voltava. Eu falei: será que ele não é muito grande? Ela me respondeu que ele ia sair, que meu corpo tinha gerado o bebê daquele tamanho e que a natureza sabe o que faz.
Você consegue fazer força fora da contração, ela me perguntou. Consigo. Então contamos até quatro e você faz força, ela disse. O engraçado é que o Rodrigo fazia força junto comigo. Ele me apoiou mesmo… Então, começou a apontar a cabecinha, e ela queria que eu colocasse a mão. Eu respondi: não quero, obrigada. Mas o Rodrigo insistiu: coloca, ela disse que vai ajudar. Na hora em que coloquei a mão e senti a cabecinha dele, pensei: meu deus do céu, ele está apertadinho, preciso tirar logo ele daí. E comecei a fazer mais força ainda. Foi então que ele saiu.
Nesse instante, a enfermeira me pediu para parar de fazer força porque o Miguel estava com duas voltas de cordão umbilical no pescoço. Ela foi muito carinhosa com ele. Disse: ai, bebê, você se enrolou, estava brincando na barriguinha da mamãe? E tirou as duas voltas de cordão.
Quando olhei para o meu filho, que emoção maravilhosa! Na gestação eu não conseguia imaginar como ele era, a feição que tinha. É uma coisa linda ver que o bebê saiu de você perfeitinho, com perninha, braço, cabeça… E ainda por cima gorducho! Ele veio para o meu colo chorando, foi lindo. E não quis mamar no início. O Rodrigo cortou o cordão umbilical. Como estava frio, o enrolaram e levaram para pesar. Eu pedi para o Rodrigo ir com ele. Depois que saiu a placenta, tomei um banho e fui para o quarto. Logo Miguel chegou para mamar. Ele nasceu com 3 460 g e recebeu Apgar 9/10 [nota de avaliação da vitalidade do bebê].
Quando minha família soube que tinha nascido na casa de parto, ficou todo mundo assustado. É do convênio, perguntaram. Não, é do SUS! Quase caíram para trás. Mas não há motivo para espanto. A casa de parto é um lugar muito tranquilo, eu fui a única a ganhar bebê lá naquele dia. É tudo muito limpo, a comida é gostosa e foram todos muito atenciosos e carinhosos comigo e com o bebê.
Tenho muito orgulho do nascimento do Miguel. Embora tenha mudado de idéia só dois dias antes do parto, não me arrependo da minha escolha. E nem de não ter contado para ninguém. Se eu tivesse anunciado as minhas intenções, certamente iriam me desmotivar. Para mim, foi tudo perfeito, tudo lindo.
Aline Daiana
Agradecimento: Kátia Barga, que me deu apoio e informações cruciais para este desfecho.









