Consegui um parto normal depois de duas cesáreas

Mãe de três meninas, Fernanda sempre quis um parto normal. Nas duas primeiras gestações, confiou totalmente nos médicos e acabou em cesáreas desnecessárias. Na terceira, buscou informação e conseguiu algo que muitos consideravam impossível: um parto natural.

VBAC
Fernanda, o marido e as filhas: orgulho de ter buscado e conseguido.

 

Parto com prazer: Como foi a sua primeira gravidez?
Fernanda: A gente ouve muita história assim. A gestante vai naquela de que o parto normal é melhor para a mãe e o bebê e quando chega no final da gravidez surgem milhares de motivos para ela não ter um parto normal. Na minha primeira vez foi assim. Eu acho que foi uma cesariana por excesso de cautela do médico. Foi surgindo uma coisinha, outra coisinha, a pressão subiu um pouco, o bebê era pequeno. Aí começaram as hipóteses: ela pode ter uma restrição de crescimento, sua pressão está subindo, você pode ter uma pré-eclâmpsia. Mas não se investigou nada mais a fundo. Quando completei 40 semanas –e eu estava tranqüila porque achava que minha filha ia nascer uns dez dias depois – fiz um ultrassom, fui direto para o consultório e o médico disse que não podia esperar mais, que eu tinha que fazer cesárea porque era alto risco. Eu tomei uma cacetada, não esperava uma coisa dessas. Lembro que pedi para esperar mais uns dias porque não queria escolher a data em que ela iria nascer, isso não entrava na minha cabeça. Ele falou que, se fosse esse o caso, eu teria que fazer um ultrassom por dia, todos os dias. E que esperaria até sexta-feira, era uma terça. Eu não ia encarar uma coisa dessas. No final da gravidez você já está fragilizada. Aí fizemos a cesariana.
 
PCP: E a segunda?
F: Essa foi a cesariana que eu achei mais absurda. É aquela ridícula, que não tem nem esse tipo de justificativa. Eu vim para São Paulo [a primeira cesárea havia acontecido em Vitória], fui a um médico do convênio e ele me falou que era possível tentar um parto normal. Ele disse: “você só tem uma cesárea, feita há uns quatro anos, então vai dar tudo certo”. E eu acreditei. A gravidez correu muito tranquila, não teve nada que pudesse indicar uma cesariana, nada mesmo. A bolsa rompeu quando eu estava com quase 40 semanas. Quando liguei para avisar, ele já falou: “direto para a maternidade”. Hoje eu sei que se ele tivesse a intenção de fazer um parto normal mesmo, teria perguntado qual a cor do líquido, teria perguntado outras coisas. Cheguei à maternidade umas quatro da tarde, começando a ter contrações. Às sete da noite, um enfermeiro entrou no quarto empurrando uma maca e dizendo que era para ir ao centro cirúrgico. A gente ficou com aquela cara… Como assim  centro cirúrgico, se estou aqui para ter um parto normal? O médico foi ao quarto e falou que não dava para ser parto normal porque a bolsa estava rompida havia muito tempo. Eram sete da noite e a bolsa tinha rompido às três da tarde. Quer dizer: quatro horas de bolsa rota. Disse que ia demorar muito e que não dava para esperar porque havia risco de infecção. Que eu tinha que fazer a cesariana. E lá fomos nós para a segunda cesariana. E essa foi terrível.
 
PCP: Quando você percebeu que tinham sido desnecessárias?
F: A primeira eu sempre quis acreditar que tivesse sido necessária. Porque aconteceram coisas sobre as quais eu não tinha informação suficiente. A segunda, sempre soube que foi uma coisa meio absurda mesmo. Mas só tive consciência disso na terceira gravidez, quando comecei a procurar informações sobre parto, cesariana, parto natural, parto normal, coisa que das outras vezes tinha deixado completamente nas mãos dos médicos. Nessa terceira vez, quando o obstetra falou que não existia possibilidade nenhuma de parto normal porque eu já tinha duas cesarianas prévias e que eu não poderia nem entrar em trabalho de parto, não me conformei. E fui atrás. Comecei a pesquisar, entrei na internet, achei artigos e resolvi procurar uma segunda opinião. Sinto que tomei conta do processo.
 
PCP: Você sente que perdeu alguma coisa? Deixou de viver algo importante?
F: Só tive a dimensão disso na terceira vez, quando consegui o parto natural. Foi uma coisa extremamente enriquecedora para mim, uma experiência de vida, como mãe e como mulher. É muito especial poder parir uma criança, sentir o fluxo da vida. É claro que o nascimento de um filho é sempre um momento especial e a gente quer que corra tudo bem. As minhas filhas são superamadas, mas a cesárea é um processo em que você está ali, inerte, anestesiada, amarrada. É quase como esvaziar uma sacola: abre, tira e pronto. Enquanto no parto não, você faz parte daquilo, é protagonista. É uma sensação muito diferente. É muito mágico.
 
PCP: Como você lidou com o medo? Como avaliou os riscos?
F: A gente teve um momento de decisão, que foi quando o segundo obstetra me deu uma opinião diferente da do primeiro. Ele disse que era possível sim e que havia um risco de 0,5% de ruptura uterina, o mesmo que se eu tivesse só uma cesariana. Procuramos ler bastante, vários artigos científicos, estudos com grávidas em partos naturais depois de cesariana nos Estados Unidos e na Europa. Naquele momento, eu e meu marido decidimos que 0,5% era quase como dizer que tudo na vida tem o imponderável. Era um risco pouco significativo. E no momento do parto eu nem me lembrei que tinha uma cicatriz de cesariana. Consegui me entregar e deixar fluir. Foi tudo muito natural, muito tranquilo.
 
PCP: O que a experiência do parto natural trouxe para você?
F: A questão do protagonismo. No parto natural, você é a protagonista do processo. O seu corpo dita o ritmo, dá os tempos. Ter isso respeitado no momento do parto é muito importante. Na cesariana o parto é do médico. No parto normal e principalmente no parto natural, é nosso: da mãe e do bebê. Eu me senti muito renovada. É uma sensação de poder. Dar à luz é uma energia muito grande e eu acho que consegui fechar as feridas das duas cesarianas. Agora eu olho para a cicatriz e não sinto mais tristeza. Sinto orgulho de ter buscado e conseguido.

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8 Responses Subscribe to comments


  1. Eva

    Olá
    Tive meu primeiro bebe natimorto apos um parto normal muito sofrido e horrivel. Agora tive o meu segundo bebê de uma cesariana igualmente horrivel e que mexeu muito com minha cabeça.
    Ja tem 4 meses, meu bebe é sadio e belissimo mas eu me sinto tao mal que francamente passo horas como q viajando, olhando pro nada.
    Esperei 17h de trabalho de parto e meu bebe n nascia, logo o medico deu um ultimato…bolsa rota ha mais de 24h,etc.
    Hoje nao tenho mais coragem de outra gravidez e penso dia e noite em adoção.
    Eva

    Jul 17, 2009 @ 10:23


  2. sandra

    ESTOU GRAVIDA PELA SEXTA VEZ TIVE TREZ CESARIANAS,UM PARTO NORMAL (FORCEP´S),E UM ABORTO,ENFIM SOU MÃE DE TREZ FILHOS,MINHA ULTIMA CESÁREA FOI A DOIS ANOS E MEIO,ESTOU COM MUITO MEDO DE UMA NOVA POIS COMPLETARÁ QUATRO CESÁREAS,QUAL O RISCO? ME AJUDEM POR FAVOR A ESCLARECER MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO,UM GDE ABRAÇO.

    Nov 25, 2009 @ 09:09


  3. JANNY PADILHA

    OLÁ BOA NOITE…GOSTEI MUITO DA SUA OPINIÃO FERNANDA…E FOI MUITO EMOCIONANTE…EU TENHO UM FILHO DE 8 ANOS COM CESÁRIA E DEPOIS DISSO DOIS ABORTOS UM COM 6 MESES TBM COM CESÁREA, E OUTRO ABORTO COM 3 MESES FEITO COM ASPIRAÇÃO.HOJE ESTOU GRÁDIDA DE 16 SEMANAS E MUITO FELIZ…DECIDIDA A TER UM PARTO NORMAL…PEÇO QUE DEUS ME DE UMA OPORTUNIDADE DE PASSAR POR ESTE MOMENTO,AO CONTRÁRIO DE ANTES QUE TINHA MEDO E PAVOR DE PARTOS NORMAL,ESTOU COMPLETAMENTE CONFIÁVEL DE PASSAR POR ESTE MOMENTO…POIS IMAGINO QUE AS CÉSARIANAS QUE EM MIM FORAM FEITAS , FORAM SEM NECESSIDADES,PORQUE ME LEMBRO QUE NEM TODA A DILATAÇÃO FOI ESPERADA PARA SER CONCLUÍDO O TRABALHO DE PARTO E JA LOGO FIZERAM CESÁRIANA.HOJE PENSO E ESTOU DECIDIDA DAR A LUZ A UM BEBE A PARTO NORMAL…PARABÉNS FERNANDA…MUITA SAÚDE A VOCÊ E AS 3 PRINCESAS …BEIJINHOS JANNY PADILHA (PORTO- PORTUGAL) E POR FAVOR DESCULPE ME PELO ERRO AI EM CIMA…CONFUNDI RSRSRS ERA MESMO PRA TI O QUE ESTOU A DIZER.

    Nov 27, 2009 @ 22:11


  4. Rodolfo Campos

    Prezados senhores, a Agência Nacional de Saúde Suplementar lançou uma campanha de incentivo ao parto normal e contra as cesáreas desnecessárias. Para isso criamos hum hotsite (http://www.ans.gov.br/portal/site/_hotsite_parto_2/index.asp) que conta, entre outras coisas, com depoimentos de mães relatando suas experiências com a gestação e o parto. Nós vimos o depoimento da Fernanda e gostaríamos de contactá-la para perguntar se ela poderia colaborar conosco dando um depoimento, ou permitindo que nós reproduzíssemos o que escontra-se no site do Parto com Prazer.

    Nov 30, 2009 @ 10:43


  5. gisele

    Fernanda
    Estou passando exatamente pela mesma situacao… A diferenca eh que ainda nao encontrei em minha cidade um obstetra que queira encarar um parto normal apos 2 cesareas. Consegui duas obstetras ha 100 km de onde moro. Estou insegura quanto a saber se dara tempo de viajar e chegar no hospital assim que entrar em trabalho de parto… Mas tenho certeza que vou conseguir e voltarei aqui para contar para vcs. Estou com 31 semanas, e esta voando!! Torcam por mim!!
    Bjs

    Feb 03, 2010 @ 16:23


  6. Sara

    Olá Fernada! Sua historia me renovou as esperanças em encontrar um medico que tope fazer o meu parto normal. sou mae de dois filhos nascidos de cesarianas que na minha opniao hoje amadurecida, sei que foram desnescessarias. Estou gravida de cinco meses e so ouço que é impossivel fazer parto normal, mas depois de ler seu artigo vou tentar encontrar outro medico ate o fim da gravidez e se for possivel fazer um parto o mais natural possivel. abraços!

    Apr 26, 2010 @ 11:13


  7. gisele

    Fernada,

    Voltei para contar que consegui parir apos 2 cesareas, diabete gestacional, 41 horas de bolsa rota. Minha filha nasceu com 40 semanas e 6 dias em um lindo parto natural. Se quiserem ler, vou adorar se deixarem um recadinho no meu blog: http://www.mulheresempoderadas.wordpress.com

    Bjs

    Jun 02, 2010 @ 17:13


  8. tatiane

    Estou gravida de 6 meses,minha primeira gravides foi cesaria devido a pre-eclampisia. nesta gravides esta tudo bem , sem problema algum mas tenho medo do parto normal.preciso de opinioes.

    Jul 19, 2010 @ 17:27

Reply


Cesáreas desnecessárias

Não se deixe enganar. Embora muito alegadas pelos médicos, as condições abaixo NÃO são indicações de cesariana.

Por Melania Amorim, obstetra.

1. Circular de cordão, uma, duas ou três “voltas” (campeoníssima – essa conta com a cumplicidade dos ultrassonografistas, e o diagnóstico do número de voltas é absolutamente nebuloso)
2. Pressão alta
3. Pressão baixa
4. Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
5. Diagnóstico de desproporção céfalo-pélvica sem sequer a gestante ter entrado em trabalho de parto
6. Bolsa rota (o limite de horas é variável, para vários obstetras basta NÃO estar em trabalho de parto quando a bolsa rompe)
7. “Passou do tempo” (diagnóstico bastante impreciso que envolve aparentemente qualquer idade gestacional a partir de 39 semanas)
8. Trabalho de parto prematuro
9. Grumos no líquido amniótico
10. Hemorróidas
11. HPV
12. Placenta grau III
13. Qualquer grau de placenta
14. Incisura nas artérias uterinas (aliás, pra que doppler em uma gravidez normal?)
15. Aceleração dos batimentos fetais
16. Cálculo renal
17. Dorso à direita
18. Baixa estatura materna
19. Baixo ganho ponderal materno/mãe de baixo peso
20. Obesidade materna
21. Gastroplastia prévia (parece que, em relação ao peso materno, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come)
22. Bebê “grande demais”
23. Bebê “pequeno demais”
24. Cesárea anterior
25. Plaquetas baixas
26. Chlamydia, ureaplasma e mycoplasma
27. Problemas oftalmológicos, incluindo miopia e descolamento da retina
28. Edema de membros inferiores/edema generalizado
29. “Falta de dilatação” antes do trabalho de parto
30. Gravidez super-desejada (motivo pelo qual os bebês de proveta aqui no Brasil muito raramente nascem de parto normal)
31. Gravidez não desejada
32. Idade materna “avançada” (limites bastante variáveis, pelo que tenho observado, mas em geral refere-se às mulheres com mais de 35 anos)
33. Adolescência
34. Prolapso de valva mitral
35. Cardiopatia (o melhor parto para as cardiopatas é o vaginal)
36. Diabetes
37. Bacia “muito estreita”
38. Mioma uterino
39. Parto “prolongado” ou período expulsivo “prolongado” (também os limites são muito imprecisos, dependendo da pressa do obstetra)
40. “Pouco líquido”
41. Artéria umbilical única
42. Ameaça de chuva/temporal na cidade
43. Obstetra (famoso) não sai de casa à noite devido aos riscos da violência no Rio de Janeiro
44. Fratura de cóccix em algum momento da vida
45. Conização prévia do colo uterino
46. Eletrocauterização prévia do colo uterino
47. Varizes na vagina
48. Constipação (prisão de ventre)
49. Excesso de líquido amniótico
50. Anemia
51. Data provável do parto (DPP) próximo a feriados prolongados e datas festivas

Parto com Prazer recomenda
  • Cia das Mães
  • Dança Materna
  • http://www.cinematerna.org.br
  • http://www.maternidadeativa.com.br
  • http://www.partodoprincipio.com.br/
  • http://www.primaluz.com.br
  • Mamíferas
  • Projeto Acalanto
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