Partos, cicatrizes, agulha e linha

Untitled design (3)Relatos de parto são histórias. No passado, eram transmitidos oralmente de geração em geração. Assim como os fazeres manuais, tradicionalmente ensinados e aprendidos no ambiente doméstico, de mãe para filha. Reunidos e analisados pela linguista Luciana Carvalho no livro Eu não quero [outra] cesárea, os relatos de parto após cesárea serviram de inspiração para o trabalho da arquiteta e bordadeira Sabrina Câmara, que uniu com agulha e linha essas duas tradições femininas – histórias de parto e trabalhos manuais.

Assim como os relatos escritos, os bordados materializam a voz das mulheres que tiveram um parto após cesárea. E o que dizem essas vozes? Muita coisa. Que o parto é um evento cotidiano (‘Catei, cozinhei e temperei o feijão entre uma contração e outra’), porém não cai do céu: é arduamente conquistado (‘Depois de percorrer um longo caminho, eu tinha meu filho parido e nascido de mim’). Também evidenciam a libertação da mulher que resolveu contrariar o sistema (‘Eu vou gritar simmmm!’) e ressaltam seu protagonismo (‘Escolhi viver esse momento, escolhi dar à luz’). Como tantas brasileiras, as autoras dessas frases foram privadas de viver essa experiência uma vez (ou duas, ou três, ou quatro!). Para só depois, lutando contra tudo e contra todos, conseguir dar à luz (‘Eu pari quando o mundo todo disse que eu não podia’).
A delicadeza dos tecidos e da técnica escolhida – o romântico ponto atrás, que pede o uso de bastidor para manter o tecido bem esticadinho – ecoa o lirismo de algumas frases (‘Eu engravidei, eu gerei, eu pari’) e contrasta com a aspereza de outras (‘Enfermeira! Enfermeira! Cadê a porra da enfermeira?’), provocando um misto de emoção e surpresa.

Assim como o estudo que deu origem ao livro, este projeto faz de um conjunto de frases um coro de vozes, que clamam pelo direito de viver plenamente esta que é uma das mais belas experiências do feminino.

Sobre a autora

Sabrina Câmara nasceu e cresceu em Manaus, numa família em que os fazeres femininos – cozinhar, costurar, bordar – se mantêm sempre presentes. Na infância, passava as tardes com a avó e a dinda, uma espécie de segunda avó, com quem aprendeu crochê, ponto-cruz e, por último, o bordado, que hoje usa como forma de expressão artística.

Adulta, mudou-se para São Paulo para cursar arquitetura. Nunca fez dessa arte sua profissão, mas guardou boas noções de estética e proporção. Usou-as em trabalhos de decoração, cinema, teatro e na produção de uma revista de arte.

Os trabalhos manuais da infância e da adolescência ficaram por um tempo esquecidos. “Na vida de São Paulo falta espaço para o feminino. É uma vida de trabalho, muito masculina”, acredita. Com a maternidade, deu um tempo “nessa vida louca” e se reconectou com o feminino e as tradições de família.

Durante a gravidez do segundo filho, passou a bordar frases. E se libertou de algumas regras. Parou de se preocupar com o avesso e começou a se expressar em verso. Queria algo “menos mulherzinha, mais anárquico”. Elegeu o ponto cheio: grande, marcante, com muita sobreposição de linhas. E as letras foram surgindo. O primeiro verso que bordou foi de Caetano Veloso: ‘menina do anel, de lua e estrela, raios de sol, no céu da cidade’, entoa o quadro que hoje enfeita a parede da casa de uma tia.

Depois vieram versos de Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Chico Buarque, Rita Lee. Frases anônimas, frases de conversas com algum conhecido. Recados, desabafos, cutucadas com endereço certo. “Tudo o que me toca”, sintetiza. “É profundamente autoral e biográfico”, diz Sabrina sobre seu trabalho.

Quando está em Manaus, espera as crianças dormirem e revive a tradição: vai para o quarto da dinda, põe música, senta na cama dela e bordam juntas, ouvindo histórias de família, madrugada adentro. A dinda é exigente: faz questão de conferir o verso – o avesso mesmo, não a poesia escolhida.

Neste projeto, trabalhou com paixão. Com relação a parto, não se declara ativista, nem sonhadora. Mas se vê, sim, como uma mulher transformada pelo nascimento dos filhos – Miguel e Caetano. “Bordei sem parar, envolvida”. Enquanto criava, imaginava quem teria dito aquela frase, em que circunstância. Bordando as vozes de outras mulheres, escreveu uma pequena parte de sua própria história.

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